quinta-feira, 12 de setembro de 2013

No ponto

Pesquisadores brasileiros desenvolvem fio de sutura enriquecido com células-tronco capaz de acelerar em três vezes o tempo de cicatrização dos pontos de uma operação. A invenção promissora deve ser testada em humanos em breve.

No ponto

Fios de sutura enriquecidos com células-tronco promoveram cicatrização mais rápida em animais operados. (foto: Bruno Volpe)

Uma ideia simples de pesquisadores brasileiros pode acelerar em até três vezes o processo de recuperação de cirurgias nas quais é necessário dar pontos. A solução está na união do fio de sutura comum com as poderosas células-tronco, que têm a capacidade de se transformar em qualquer tecido do corpo e acelerar o processo de cicatrização. 

A injeção de células-tronco em lesões como forma de tratá-las vem sendo estudada em diversos países, inclusive por meio de experimentos com humanos. Os resultados até agora são promissores, mas não chegam perto dos obtidos em animais pelos pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que usaram fios de sutura cobertos com células-tronco retiradas da gordura corporal – conhecidas como mesenquimais.

Para fixar as células-tronco no fio, os pesquisadores se valeram de uma substância medicinal comumente usada para conter hemorragias, a cola de fibrina. Essa cola é produzida a partir do plasma humano, a parte líquida do sangue, e, por isso, é facilmente absorvida pelo organismo. 

O fio enriquecido foi testado em ratos na sutura de fístulas de intestino, lesões de lenta recuperação que, quando operadas em humanos, exigem internação. “Escolhemos as fístulas por serem de difícil cicatrização e envolverem uma cirurgia que não raramente gera complicações para muitos pacientes”, explica o biólogo Bruno Volpe, que desenvolveu a pesquisa como parte do seu mestrado na Unicamp.

Fios
Imagens de microscopia de fios de sutura comuns cobertos com milhões de células-tronco (indicadas pelas setas) retiradas da gordura corporal. (foto: Bruno Volpe)

 

Cicatrização acelerada

Volpe trabalhou com três grupos de animais com feridas de mesmo tamanho. Um grupo controle foi operado com o fio de sutura tradicional. Um segundo grupo recebeu o fio com células-tronco e um terceiro teve essas células injetadas diretamente na ferida, como vem sendo feito em estudos clínicos internacionais.

Já no terceiro dia após a operação, os pesquisadores observaram que a ferida dos animais tratados com o fio de sutura enriquecido havia diminuído 75%. O prazo normal de recuperação total desse tipo de cirurgia é de oito semanas.

Os ratos operados com o fio especial também mostram recuperação bem mais rápida que os que receberam a injeção de células-tronco. Ao final de 21 dias, as feridas tratadas com a injeção tinham reduzido 70%, enquanto as suturadas com o fio coberto por células-tronco estavam 90% menores.

No terceiro dia após a operação, a ferida dos animais tratados com o fio de sutura enriquecido diminuiu 75%

Segundo Volpe, o fio enriquecido provocou uma melhor resposta do organismo se comparado com a injeção porque funcionou como um suporte para as células-tronco, direcionando-as ao lugar necessário. “Quando simplesmente injetamos as células, elas podem se perder e migrar para outros tecidos”, diz. “Já quando utilizamos o fio, as células agem diretamente no local onde o ponto foi dado e outras acabam se desprendendo e passam a agir na lesão operada.

O biólogo ainda não tem os dados necessários para afirmar como exatamente as células-tronco atuaram na cicatrização. Ele pretende elucidar essa questão em seu doutorado. Mas, com base no que já se sabe sobre essas células, ele dá seu palpite. 

“Sabemos que as células-tronco liberam substâncias estimulantes de crescimento que melhoram a cicatrização”, pontua. “O mais provável é que esse processo tenha ocorrido juntamente com a transformação de algumas das células em tecido intestinal.” 

O pesquisador já fez o pedido de patente de sua invenção e pretende iniciar testes com humanos até o final do ano. Teoricamente, o fio poderá ser usado em qualquer tipo de cirurgia. 

 

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

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